Amor por doces… ou pelas pessoas?

Uma chef Patissier, que trabalha em uma cozinha de sonhos onde tudo acontece na mais perfeita ordem e tranquilidade. Supervisionando a preparação dos mais lindos e deliciosos doces. Provando seus sabores e texturas. Imaginando e criando deliciosas sobremesas, com aquele lindo dolmã recheado de brasões … “Trim-Trim”. Dou um triplo mortal carpado e pulo da cama num susto como quem acorda de um lindo sonho para mais um dia de trabalho, que na realidade não tem nada de tão glamouroso como nesse sonho, nos filmes, ou nos programas de televisão.

Não posso negar que para mim seja delicioso e prazeroso trabalhar com o que amo, mas esse é o ponto. E é sobre isso que vou escrever para vocês hoje, sobre a dedicação, o amor e a entrega que são necessários para cumprir com louvor a minha missão.

texto confeitaria

A confeiteira Cecilia Catto e suas filhas, Bárbara e Carol

Já dizia o famoso poeta e escritor moçambicano, Mia Couto, em seu livro “O fio das missangas”, que “…cozinhar não é um serviço…” “…cozinhar é um modo de amar os outros…”. Eu concordo com esse pensamento em gênero, número e grau, e digo porque: na comida se coloca TUDO, desde temperos e especiarias, até sentimentos e energias.

Parece pouco ou muito óbvio o que acabei de dizer, mas leia novamente com mais atenção – na comida se coloca TUDO, desde temperos e especiarias, até sentimento e energias.

Isso explica muita coisa (vou usar meu ramo de atuação para exemplificar), às vezes estamos com vontade de comer um doce, algo que nem sabemos direito o que é, mas bate aquela vontade de algo diferente e você vai à procura, entra numa doçaria e pede o doce que mais lhe chamou a atenção (detalhe, ele é lindo, super elaborado, cheio de coisinhas diferentes) e então você come.

Pois bem, em teoria você deveria estar se sentindo a pessoa mais feliz do mundo e sua expectativa deveria ter sido satisfeita, mas na prática muitas vezes não é isso o que acontece; você não sente que comeu um doce especial e maravilhoso como esperava.

Se por outro lado, você está na mesma situação, morrendo de vontade de comer um doce diferente, mas não consegue sair de casa a procura do doce perfeito, decide então comer aquele humilde bolinho de cenoura que sua mãe fez no domingo a tarde, já que não tem outra opção… Surpreendentemente, você tem uma sensação incrível naquele momento, você se delicia com o bolo que já está cansado de comer há anos, sempre o mesmo bolo, do mesmo jeito, mas naquele momento ele parece o melhor bolo de cenoura do mundo e você sente que não poderia ter escolhido um doce melhor do que aquele para satisfazer sua vontade.

E então você se pergunta: Mas não deveria ser o contrário? Eu não deveria me satisfazer muito mais com algo diferente, que não experimento sempre, que foi feito com todo o tipo de técnica, de ingredientes mirabolantes e finalizações perfeitas? E a resposta é NEM SEMPRE! E é aí que morra o X da questão (ou o ponto chave, ou o pulo do gato…enfim, como queiram chamar).

Um doce não é feito somente de ingredientes e técnicas, mas talvez, principalmente do sentimento, da energia e da emoção que colocamos nele durante seu preparo. É nisso que eu acredito e por esse motivo, a confeitaria para mim não é somente amor pelos doces, mas sim pelas pessoas.

E o meus doces? Bom, para mim eles são o meio de transporte de bons sentimentos e energias… Porque nosso mundo precisa disso, as pessoas precisam disso.

Então, da próxima vez que você for comer um doce, seja ele o mais elaborado de uma grande confeitaria, ou o bolinho mais simples feito pela sua mãe para o chá da tarde, tente perceber que sensação aquele alimento te traz, que emoção ele provoca. Você nunca mais comerá um doce da mesma forma que comia antes!

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